BIOGRAFIA
É preciso "flutuar como uma semente que, onde cai, germina"
(A. Santini)
Júlio Olivar nasceu no dia 14 de junho de 1973, em Poço Fundo (MG). É o décimo segundo filho de Domingas Noronha e Antônio Benedito. Morador em Rondônia desde 1998, é radialista e repórter, com passagens por vários jornais impressos e emissoras de rádio e de televisão, além de ter prestado assessoria de imprensa a várias entidades.
Segundo relato do historiador e escritor Schiller Ferreira Noronha, publicado em12 de abril em 2003, Júlio Olivar foi um menino criado na área rural. “Surgiu muito novo na carreira jornalística. Rapaz bem aparentado, tinha duas espadas afiadas: uma era uma boa redação como jornalista e a outra era sua voz de bom locutor, com excelente dicção”, escreveu Schiller na coluna “Histórias de Poço Fundo”, que retratava perfis de filhos ilustres da cidade.
Ainda de acordo com o mesmo historiador, Olivar tem nas veias o sangue dos Noronha, embora não o tendo nome. Schiller afirma na genealogia do autor que sua mãe, com ascendência em Heliodora (MG), tinha o mesmo tronco familiar do insigne intelectual e poeta Plínio Sérgio de Noronha Motta (1876/1953), da Academia Mineira de Letras, da qual ocupou a cadeira número 39, hoje pertencente a Patrus Ananias (ex-ministro de Estado, ex-prefeito de Belo Horizonte).
Júlio Olivar começou escrevendo no Jornal da Cidade, aos 15 anos, em Poço Fundo. Depois seguiu trabalhando nas rádios Difusora AM e Montanhesa FM, ambas de Machado, (MG), de 1991 a1996. Passou pela Rádio Objetiva Um FM, de Paraguaçu (MG), de 1993 a 1994. Editou de 1992 a 1997 o jornal Siga em Frente, também em Machado, MG, onde também foi fundador e presidente do Partido Popular Socialista (sucedâneo, à época, do Partido Comunista Brasileiro), de 1997 a 1998.
Já em Rondônia, começou no jornal Folha do Sul, do qual foi editor. Fundador do Expressão, em Vilhena (RO), em 2000, considerado na ocasião por alguns dos principais jornalistas do Estado como um “jornal de vanguarda”. Atuou na TV Rondônia (afiliada da Rede Globo), em 2002, sendo autor de reportagens exibidas em toda a América Latina pelo canal Amazon Sat. No mesmo ano, fez matérias veiculadas pela Rádio Jovem Pan, de São Paulo (SP). De 2001 a 2002 foi diretor de Jornalismo do Sistema Rondônia de Comunicação, com sede em Porto Velho e constituído de oito emissoras de rádio no Estado.
Autor de “O Mistério do Cônsul”, livro que relata a história de Lourenço Westin, primeiro cônsul da Suécia e Noruega no Brasil, publicado em 2005, com “orelha” assinada pelo embaixador do Brasil em Estocolmo, Oto Agripino Maia. A obra, elogiada por notáveis historiadores, jornalistas e personalidades brasileiros, está disponível nas bibliotecas do Consulado Geral da Suécia no Brasil, Supremo Tribunal Federal, Senado e Universidade de Brasília.
Em 2008, publicou seu segundo livro: “Ruas que andei”, que mostra a história de uma família fugindo da miséria do sertão do Norte de Minas. Junto com o pai e o irmão, Anísio Ruas – o biografado – perambulou por velhas e decadentes fazendas para escapar da fome, vivendo grandes aventuras até tornar-se interno num colégio militar na divisa com a Bahia, enfrentando a tortura como norma educacional nos anos de chumbo do país.
Membro da Academia Vilhenense de Letras, desde 2002, e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rey (MG), desde 2007. Recebeu o título de Cidadão Honorário de Machado em 2010, na mesma sessão em que foram homenageados o ex-ministro dos Esportes Carlos Melles e o deputado federal Silas Brasileiro, entre outros.
Interessado em assuntos indígenas, Olivar estudou Tupi com o notável mestre carioca Joubert di Mauro. Ministrou várias palestras sobre os indígenas da região, inclusive na Universidade Federal de Rondônia. Denunciou através dos principais órgãos de imprensa estaduais e do jornal O Estado de S. Paulo, além de veículos internacionais, na França, Estados Unidos e Alemanha, o descaso com as questões ligadas aos povos nativos.
A existência de lavoura de soja no antigo cemitério indígena de Vilhena apareceu na capa dos maiores jornais do Estado. Mas Olivar trabalhou pela preservação da memória de uma forma geral, sobretudo pela recuperação da Casa de Rondon, primeira edificação de não-índios na região, erguida pela expedição comandada pelo legendário Marechal Cândido Rondon.
A cultura dos indígenas do Cone Sul é tratada no livro Rooksgnalen (Sinais de Fumaça, em português) publicado em 2007 na Holanda e que ainda não foi traduzido para outros países. A obra teve a colaboração de Júlio Olivar, que forneceu material de pesquisa e concedeu entrevista à autora, Ineke Holtwijk, então correspondente na América Latina do Volkskrant (o jornal do povo, de Amsterdã).
O jornal The Washington Post, dos Estados Unidos, mostrou em sua edição de 13 de janeiro de 2008 uma ampla reportagem sobre os índios isolados (de etnia desconhecida) de Rondônia. A matéria, que também contou com a colaboração de Júlio Olivar, foi assinada por Monte Reel, com depoimentos de sertanistas que trabalharam – e foram perseguidos — no estado por conta da luta em defesa dos direitos dos povos indígenas.
Na política, Júlio Olivar foi assessor parlamentar na Câmara Municipal de Vilhena, lotado no gabinete da vereadora Marlene Silveira, assessor do ex-senador Odacir Soares e assessor executivo da Prefeitura de Vilhena. Foi vice-presidente e presidente do diretório estadual do Partido Comunista do Brasil, em Rondônia. Candidatou-se a vice-prefeito, em 2004, na chapa encabeçada pelo ex-senador Chico Sartori, e a vice-governador do Estado, em 2006, tendo a então senadora Fátima Cleide à frente da coligação que ficou em segundo lugar nas eleições. Em 2010, foi um dos coordenadores da campanha vitoriosa de Confúcio Moura (PMDB) para o governo de Rondônia.
Apresentou, em 2010, na TV Band, em Vilhena, o programa de entrevista E Ponto Final; foi apresentador e produtor do programa jornalístico Primeira Hora, veiculado diariamente na Rádio Meridional FM, em 2009; é colunista do jornal Folha do Sul.
Recebeu algumas condecorações, entre elas:
- Certificado Imprensa, conferido pelo Sindicato dos Proprietários de Jornais e Revistas do Estado de Minas Gerais (1993);
- Personalidade do Ano – conferido pelo Jornal Sul das Geraes, Pouso Alegre (1993);
- Certificado “Trabalhador do Ano”, conferido Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Machado (1995);
- Moção de Aplauso – conferida pela Câmara de Vereadores de Vilhena (2000);
- Troféu “PT 20 Anos”, do Partido dos Trabalhadores de Vilhena, RO (2000);
- Medalha do “Mérito Acadêmico”, da Academia Vilhenense de Letras (2002);
- Personalidade em Evidência, da revista Evidência, de Rondônia (2009);
- Personalidade do Ano – Revista Evidência, de Rondônia (2010);
- Prêmio “Qualidade Profissional” – Instituto Record Pesquisas (2010);
- Cidadão Honorário de Machado – MG, conferido pela Câmara de Vereadores (2010).
ENTREVISTA
SELMO VASCONCELLOS – Quais as suas outras atividades, além de escrever ?JÚLIO OLIVAR - Basicamente, meus trabalhos giram em torno da comunicação social. Comecei no rádio aos 16 anos. Hoje, tenho uma coluna na Folha do Sul, principal jornal do Cone Sul de Rondônia, onde trato de política e cotidiano. Trabalhei em emissoras de TV, além de ter prestado assessoria de imprensa e marketing a instituições e políticos. Também sou militante político e cultural. Milito no PCdoB desde 2003 e, como político, já disputei duas eleições pelo partido, inclusive como candidato a vice-governador, em 2006. Em breve, colocaremos no ar um site inovador na região, tratando de turismo, história, cultura e outros valores de Rondônia e da Amazônia. Sou membro da Academia Vilhenense de Letras, entidade nascida há nove anos com o fito de promover não apenas a literatura, mas a cultura de uma forma mais abrangente.
SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?JÚLIO OLIVAR - Há coisas que a gente não explica. Eu me criei num lar muito simples, na área rural de Minas Gerais. Meus pais eram simples agricultores, iletrados, mas eu desde pequeno tinha uma afeição pelas letras. Naquele tempo, era usada na alfabetização a cartilha “Caminho Suave”, de Branca Alves de Lima, hoje bastante criticada pelos defensores dos conceitos piagetianos. Seja como for, foi meu primeiro livro e ainda o tenho em meu acervo. Sou muito dado a guardar “velharias”. As letras, por si, me chamam a atenção desde sempre, pela estética em si. Tenho manuscritos de mais de 150 anos, de velhos barões do café de Minas. Sempre fui inspirado pela observação das tradições do povo, da arquitetura antiga, da cultura oral, que são muito fortes em Minas. Minha escrita sempre perpassa por esses valores. Na adolescência, li muito, de obras clássicas de filosofia e história; a contemporâneas, a exemplo de “Os Carbonários”, de Alfredo Sirkis, e “Feliz ano velho”, de Marcelo Rubens Paiva, que foram marcos do meu despertar para o prazer de ler. Gosto muito de biografias e memórias, pois estas leituras são viagens que fazemos em companhia dos personagens, conhecendo muitos mundos, inclusive o da psicologia – ou os porquês – que conduz os biografados e o seu tempo.
SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados ?JÚLIO OLIVAR - Tenho apenas dois livros publicados: “O Mistério do Cônsul”, de 2005, e “Ruas que andei”, de 2008. Encontram-se no prelo outros dois: “De Gilberto a José” (biografia de todos os administradores e prefeito de Vilhena, ao longo de 37 anos) e “O Notívago”, meu único livro de poemas.
SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir seus trabalhos literários ?JÚLIO OLIVAR - Eu não saberia lhe dizer, pois é subjetivo. Acredito, inclusive, que o escritor em geral escreve para si mesmo; quer se imortalizar à custa da sua pena. E acho isso muito justo. Ele nunca sabe, ao certo, que impacto sua obra causa ou pode causar. Apesar deste sentimento reinante, o que me move a escrever é a sensação de que “tenho que fazer”, que tal história não me pertence e merece ser compartilhada. Vira compromisso. Meus dois livros, bastante modestos, versam sobre história, sociologia e aspectos em geral da brasilidade. O “Mistério do Cônsul”, por exemplo, é uma viagem pelo Brasil-Império através das vivências do ambíguo Lourenço Westin, primeiro cônsul da Suécia em solo brasileiro. Foi uma figura notável, compadre do Regente Feijó. O livro teve a “orelha” escrita por Margareta Winberg, então vice-ministra sueca. Curioso que, consultando universidades, museus, acervos públicos e personalidades suecas, poucos sabiam daquele que foi o compatriota deles mais influente, em seu tempo, no Brasil e sua influência no mundo dos negócios na América do Sul. Hoje, alguns historiadores e acadêmicos daquele país entram em contato comigo em busca de pormenores sobre Westin, cuja trajetória pesquisei durante mais de uma década e a contextualizo à formação da maçonaria, da religiosidade e do próprio Brasil enquanto pátria, pois ele viveu num momento de conflagração política. Escrever história é como costurar uma colcha de retalhos, cada dia você junta uma informação nova à peça que se torna o livro.
SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?JÚLIO OLIVAR - Gosto de vários autores de literatura brasileira, notadamente os mais antigos. Aprecio Castro Alves, Lima Barreto, Aluisio de Azevedo... todos estes mestres. Tenho como patrono na Academia Vilhenense de Letras o poeta Carlos Drummond de Andrade, cuja obra é “hor concur”, e não apenas por sua face mais conhecida, que é a da poesia. Drummond é um contista e um cronista sem-igual. Dos mais modernos, gosto do estilo simples e sem rebuscamentos de Rubem Alves e, em seu contraponto, o emaranhado de “verdades” que representam alguns textos do uruguaio Eduardo Galeano. Ambos falam do existencialismo, cada qual ao seu modo, e são geniais. Eu poderia citar vários outros autores universais de que gosto muito: o poeta alemão Bertolt Brecht é um deles. Já o escritor irlandês Oscar Wilde para mim é intrigante. Ele confunde-se com o seu texto. Os diálogos que ele cria contêm muitas entrelinhas fabulosas, com verdades cortantes sobre a vida e as relações humanas. Também leio muito História. Acredito que esse segmento tornou-se, inesperadamente, um “filão” graças à habilidade de notáveis como Eduardo Bueno e Laurentino Gomes, que se desprenderam de fontes oficialescas, valendo-se do talento de jornalistas para mostrar a história como ela é, com uma narrativa muito mais saborosa, e sem perder a densidade e o seu caráter documental. Nunca, livros de história haviam sido best-sellers antes da obras “1808” e “1822”.
SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores ?JÚLIO OLIVAR - Escrever é uma forma de se libertar. Muitos, porém, têm observado mais o mercado do que os princípios que devem nortear o verdadeiro escritor. Hoje, com o advento da informática, muitos têm se prendido ao que célere, dando evasão a qualquer coisa que a demanda requeira. No entanto, tem-se perdido no sentido estético, na reflexão e na documentação, no caso dos trabalhos que versam a memória e a história de forma mais abrangente. Ou se é superficial ou se é muito denso. Ou às vezes, apenas “academicamente correto”, sem personalidade. Uma boa obra não precisa ser prolixa e nem chata. Assim como não se pode rotular como “lixo literário” aquele texto mais fluente ou aparentemente “fácil demais”.
O importante é escrever. Deixar pegadas pela vida, e a melhor forma disso acontecer é registrar suas impressões e sensações do mundo, seja em prosa ou verso. Eu acredito que é na juventude que temos as melhores inspirações. Na velhice, o melhor olhar para colocá-las no papel. Sempre é um bom tempo para se expressar, escrever e eternizar o prisma singular que cada um tem da vida.
Rondônia tem um potencial a ser desbravado no campo literário e eu acredito muito nos valores da nossa terra. Conheço textos maravilhosos da lavra de rondonienses e que nunca foram publicados. Precisamos e devemos lutar por mais eventos que incrementem a literatura e também por mais participação do poder público que deve ter na cultura um eixo fundamental para o desenvolvimento pleno do ser humano.
POEMAS 
“Os poetas nascem, os oradores se fazem”, diz a expressão em latim. Não nasci poeta. No entanto, cometo alguns escritos despretensiosos contando de mim numa linguagem – por assim dizer – poética.
Empiricamente, misturo os gêneros épico, lírico e dramático. São filhos não planejado,s resultado de anotações vagas, sem compromisso, em noites vadias. Daí o nome - O Notívago - que darei ao livro. Foram anotações feitas para mim apenas, mas resolvi retirá-las do caderno com folhas amareladas, com mais de 10 anos de uso.
(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória. [1]
De tão pessoais, os escritos puseram-me em dúvida: publicá-los ou não? Resolvi expor-me a esta aventura. Antevejo que a mixórdia que ora apresento, no melhor (ou pior?) estilo autodidata, pode chocar eventuais literatos e/ou teóricos da literatura que venham a lhe passar os olhos.
Em minha defesa: Escrever, por si, é uma arte. E meu objetivo ao fazê-lo é registrar a “história real”, destoando do princípio de que “o poeta é um fingidor”, como definira Fernando Pessoa (1888/1935).
Conto minha saga desde as montanhas de Minas, que virou “só um retrato um retrato na parede, mas como dói”, de novo parafraseando o poeta Carlos Drummond de Andrade referindo-se a sua Itabira. Perpasso pelas lembranças das músicas pop – trilhas sonoras da minha vida – e pelo meu lado mais conhecido: o do protesto, inspirado, talvez, na simbologia do Jesus Cristo contestador que marcou a minha infância – fui coroinha da paróquia São Francisco de Paula, em Poço Fundo, e partícipe das Comunidades Eclesiais de Base, em Machado, Minas, ouvindo sempre muito além daquilo que se pregavam no altar. Lado que foi ratificado com a leitura, entre outros, do dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht (1898/1956), começando pelo popular “O Analfabeto Político”. Vi esse poema pela primeira vez numa tabuleta pendurada entre teias na prateleira do Bar do Tonho, um boteco cheio de fotos e velharias que ao meu olhar adolescente era a verdadeira máquina do tempo através da qual muitas vezes viajei a passados que não vivi.
Admiro os poetas. E lanço-me à exposição sincera do que sinto – mesmo entremeio ao racionalismo cáustico da vida mundana que um poeta de verdade conseguiria ver além.
Peço clemência pelo atrevimento!
[1] Trecho do poema Resíduo, de Carlos Drummond de Andrade (1902/1987)
Bom, meus trabalhos enfocam mais a história. Estou lhe passando uma sinopse dos 2 trabalhos publicados:
O MISTÉRIO DO CÔNSUL - 2005As relações entre Suécia e Brasil têm sido excelentes durante muitos anos. Geralmente porque as companhias suecas fazem investimentos no Brasil (todos os grandes são daqui), mas também através de eventos particulares, a exemplo do futebol. Em 1958 a Copa do Mundo foi realizada em Gothenburg, cuja final foi entre Brasil e Suécia. Suécia não ganhou... Mas ainda hoje o povo sueco lembra de Pelé, Didi e Garrincha. Agora há novos rumos. Além dos laços comerciais e futebolísticos, os dois países têm procurado fortalecer elos na política. Temos muito em comum e muito mais a relacionar; trocas de experiências e conhecimentos, tecnologias, cultura. Tudo isso é desafiador e excitante e um caminho para cumprir velhas tradições e também para continuar o que outras pessoas começaram. Lourenço Westin, o primeiro cônusl da Suécia e Noruega no Brasil, é uma delas.
O "Mistério do Cônsul” é uma biografia de Lourenço Westin (1787/1846) descrita no contexto da História brasileira. As pesquisas que culminaram no livro começaram em 1994. O autor consultou arquivos no Brasil e na Suécia, graças ao apoio dado pela embaixada brasileira naquele país. O resultado é uma obra com 48 imagens, entre fotografias, gravuras e mapas. O livro traz referências à história de Estocolmo e da cidade do Rio de Janeiro, terra natal e cidade onde Lourenço viveu a maior parte de sua vida, respectivamente. Olivar perfila personagens esquecidos da História: o controvertido Padre José Bento e os inconfidentes Bárbara Heliorora e Inácio Alvarenga Peixoto, e tantos outros.
RUAS QUE ANDEI - 2008Como em "Vidas secas", de Graciliano Ramos, o livro "Ruas que andei" mostra uma família fugindo da miséria do sertão. Junto com o pai e o irmão, Anísio Ruas perambulou por velhas e decadentes fazendas para escapar da fome. Da vida errante e de menino de engenho, passou a interno em um colégio militar, onde viveu grandes aventuras.
ALGUNS POEMASBÁSICOAfrouxo o cinto,
e os de segurança e castidade.
Transmudo as exigências,
Não carrego horas no braço.
Não tenho pressa de viver,
Estou seguro.
Só assim estou seguro.
***
RESISTÊNCIA Sigo a massa desnuda, desnutrida,
desta vida de mão-única:
Ou vai ou vai.
E muitos vão e racham, sem destino, conduzidos...
Sigo vendo além da marcha,
além do umbigo vulgarizado,
da menina alienada, prostituída.
A Massa!
Gente feito arraia no céu, encabrestada pelo poder
(podre, sem pudor, pecaminoso).
Vivo na teimosia de mudar.
Mas a massa quer a direção?
Caminha sob o ferrão da burguesia,
da manjedoura aos sete palmos.
E sem direito à missa de sétimo dia.
“Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz” [1]
[1] Da música “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho (1949/__)
***
SEM-CAUSADoutrinado pelos ianques,
dos que deriva a força ruidosa.
Força do tudo posso,
NAquele que me enfraquece.
Deus de olhos claros,
Capitão América.
E o resto é causa pequena,
das baratas sub-mundanas,
las cucarachas que teimam
em não se venderem:
ao Sistema.
Démodé, a palavra?
Mais ainda a birrenta escravidão,
em pleno 2002 d.C(oca-Cola).
***
ATRÁS DO MURO Supra-sumo das quimeras tantas,
circunscrito o é: do berço ao túmulo.
Profuso e titânico se julga, morrendo de dor.
Mas, com enxaqueca apenas.
Amofinado com a temperatura que cai,
medo do irmão: ameaça o seu sossego.
Respira fundo, mas o muro é o horizonte.
Vê um girassol solitário no fundo do quintal,
o canário que não canta na gaiola
- mesmo de ouro e enfeitada.
Está cercado de alucinações,
apagadas pela razão que finge um equilíbrio;
razão irreal que dá guarida...
Quando todo o resto [tudo!] falha.
Mais uma tarde.
Menos uma, em verdade,
detrás do muro da vida pequena.
Não fosse a tarde eterna.
***
PROGRESSO Vago pela cidade fantasma.
Encantos anulados pelo desdém:
ruas de paralelepípedos e cheiro de dama-da-noite
sob o frescor de julho; os alpendres vazios, não há cadeiras nas calçadas.
E voltei!
Trancado nas 14 polegadas.
Chat de um lugar distante,
de gentis mentiras, gente fútil.
Mais vazia do que o centenário povoado,
que não tem mais cinema, nem bandinha no coreto.
Ficou apenas o badalar do sino da matriz em ruínas.
Os velhos sobrados caem em nome do progresso.
E o progresso é a redoma.
Numa noite de lua cheia, sem pipoca na praça,
sem o lirismo, sem o sereno, sem a serenata de outrora...
Sem ninguém na estação fechada pelo tempo,
que silenciou o tropel e o apito da maria-fumaça.
Jukebox não há: o cabaré faliu, boemia se foi.
Fico na net, robótico, lendo errado, me emburrecendo.
E sonhando com o passado que não tive:
Saraus, cines-teatros e bailes,
que vejo nos anúncios expostos no museu abandonado.
Penso nos foots: O ir e vir das pessoas se olhando nos olhos.
Retrógrado ser/ver gente.
***
PÁRIAS QUE LHES PARIU Sexagenários inexperientes
Injuriados pelas chacinas morais
Lunáticos conscientes
Moralistas amorais
Intrometidos que nada sabem
Revolucionários solitários
Miseráveis de mãos arrasadas nas colheitas
Pés-inchados jogados nas esquinas
Índios catando o lixo da civilização
Prostitutas virgens à espera do príncipe
Virgens estupradas
Meninos chefes de família
Homens rudes que choram gritado depois dos tragos...
A dor da ausência de nem-sei-quê
O vazio de quem não é
***
ILUSÃO DE ÓTICA Fotos em branco-e-preto,
gente de sorriso amarelo.
Fotos carcomidas pela fúria do tempo,
presas pelos pregos enferrujados.
Deixadas num porão mofado,
com os rostos que foram tristes, alegres...
Que foram.
Fotos mentirosas, de momentos produzidos.
Desfizeram-se, na ligeireza do clicar do retratista.
E cada um foi prum canto,
caminhando para a aspereza de um dia a menos,
para a morte que sempre espera,
de braços abertos.
Gente morta, encaixilhada nas fotos.
Traduzem os instantes de insônia da vida,
no mais sutil e retraído desespero.
***
ECLÉTICA É da elite que cultua as coisas do Oriente
Desconsidera os pecados capitais
Faz mapa astral
Jura ser cristã
Lê Gibran[1]
Horóscopo
Seu sacerdócio:
Fama e fortuna.
Maktub [2].
Recorre às divindades nos terreiros afros,
faz oferendas e o que for...
Acorda no dia seguinte e propala:
- Em nada creio.
[1] Gibran Khalil Gibran (Líbano, 1883/EUA, 1931). Ensaísta, filósofo, prosador e poeta.
[2] A palavra Maktub quer dizer "está escrito" em árabe; nome de um livro do escritor brasileiro Paulo Coelho (1947/__).
***
RETROVISORÀ beira da estrada...
Ficou o ímpeto rebelde.
E agora se fez calmaria.
Em que ano?
Em que tempo os porquês se justificaram?
Os caminhos nos conduzem a destinos incertos...
que não o quisemos.